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A teoria da mente | Mente e Cérebro | Duetto Editorial
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A teoria da mente

Para Uta Frith e Baron-Cohen, maior anormalidade do autismo é a incapacidade de elaborar sobre a mente alheia

outubro de 2013
Da redação
Revista Mente e Cérebro
Os pesquisadores Uta Frith, do Instituto de Neurociência Cognitiva da Universidade College de Londres, e Simon Baron-Cohen, desenvolveram, na Inglaterra, uma hipótese para compreender o autismo do ponto de vista psicológico: a teoria da mente. Segundo essa tese, a principal anormalidade do autismo é a incapacidade de construir elaborações sobre a mente alheia. Existe no cérebro um circuito neuronal especializado que nos permite pensar sobre nós mesmos e sobre o outro – e assim criar formulações sofisticadas, prevendo o comportamento de seus semelhantes. Essa compreensão oferece respaldo à capacidade de cooperar e aprender com o próximo. Em suma, possibilita a interação social. A maioria das pessoas autistas, no entanto, não compreende que cada um tem os próprios pensamentos e pontos de vista e um modo único de ser. Consequentemente, elas não entendem crenças, emoções e atitudes alheias.

Para explicar alguns sintomas secundários do autismo – hipersensibilidade, ausência de contato visual, aversão a determinados sons – foi criada a teoria do mapa topográfico emocional. Na criança sem o transtorno, as informações sensoriais são enviadas para a amígdala, a porta de entrada do sistema límbico, uma área responsável pelo processamento de emoções. Usando o conhecimento armazenado, a amígdala determina a resposta emocional que deve dar a cada estímulo que recebe e, com o tempo, cria um mapa topográfico dos significados emocionais do ambiente. Naqueles que sofrem do distúrbio do espectro autista, porém, as conexões entre amígdala e áreas sensoriais tendem a apresentar distorções, o que na prática resulta em reações emocionais extremadas a estímulos e fatos sem importância e descaso em relação ao que é fundamental para as outras pessoas.

O texto acima é um trecho da matéria "Pais racionais, crianças autistas". Para ler essa e outras reportagens na íntegra, adquira Mente e Cérebro 249 (Outubro) – Transtorno do pânico, já nas bancas e na Loja Duetto.

Leia mais:

Ressonância magnética para detectar autismo

O mundo de uma garota com autismo
Possuídas pelo invisível | Mente e Cérebro | Duetto Editorial
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Possuídas pelo invisível

Talvez a histeria tenha sido a única forma que  tantas mulheres tenham encontrado para ser e existir em um mundo sem espaço para a expressão da sexualidade feminina

setembro de 2013
Maria Maura Fadel
Divulgação
Augustine. 102 min – França, 2013. Direção: Alice Winocour. Elenco: Ange Ruzé, Audrey Bonnet, Chiara Mastroianni, Grégoire Colin, Lise Lamétrie, Olivier Rabourdin, Roxane Duran, Soko, Sophie Cattani, Stéphan Wojtowicz, Vincent Lindon
Paris, fim do século 19. Numa casa luxuosa, uma jovem criada serve patrões e convidados durante um animado jantar. Todos estão entretidos na conversa e ninguém parece prestar atenção a ela – exceto um rapaz que, sentado à mesa, acompanha insistentemente os gestos da moça até que ela perceba seu interesse. Na sequência, porém, a jovem começa a sentir tremores na mão direita. Tenta disfarçar e continuar o trabalho, mas já não tem controle sobre o próprio corpo. Movimentos descompassados a sacodem; ao cair, ela tenta agarrar-se à toalha da mesa, mas só o que consegue é atirar pratos, travessas e talheres ao chão, enquanto é dominada por convulsões. Todos assistem ao triste espetáculo como se acompanhassem uma espécie de show. A moça que pouco antes parecia invisível torna-se, ao menos por alguns instantes, o centro das atenções. Ao voltar a si – violentamente arrancada do transe após uma empregada da casa atirar em seu rosto uma jarra de água – está com a mão e o olho direito paralisados.

Assim começa Augustine – mesmo nome da protagonista, interpretada pela cantora Stéphanie Sokolinski, conhecida por Soko. O filme, com direção da francesa Alice Winocour, inspirado numa história verídica, apresenta os primórdios das investigações sobre a histeria no Hospital de La Salpêtrière, onde o médico Jean-Martin Charcot, vivido por Vincent Lindon, estuda a misteriosa doença que atinge apenas as mulheres e, muitas vezes é interpretada como possessão demoníaca. É possível estabelecer relação entre essa obra e outra que esteve em cartaz recentemente, Um método perigoso, de 2011. Dirigido por David Cronenberg  (resenha na edição 233 de Mente e Cérebro, em junho de 2012), esse filme também aborda a investigação e o tratamento de sintomas histéricos. Este último, porém, se passa alguns anos mais tarde, enfocando o tratamento oferecido por Gustav Jung a Sabina Spielrein, que mais tarde se tornaria psicanalista.

Mas voltemos a Augustine. Na sequência da crise, na manhã de um dia cinzento e gelado de inverno, a moça se dirige em companhia de uma prima a Salpêtrière. Já na primeira noite no hospital, enquanto a nova paciente reza pela cura, invocando seu anjo da guarda, uma colega de quarto, a algumas camas da sua, lhe diz que ali dentro é preciso “rezar para Charcot”. Em seguida, entretanto, acrescenta: “Mas ele não ouve”. De fato, saber com as pacientes se sentiam (além dos sintomas), o que pensavam a respeito do próprio processo de adoecimento e teriam, eventualmente, a trazer sobre suas histórias não parecia importante. Mesmo as perguntas objetivas a respeito das possibilidades de cura caíam no silêncio angustiante da falta de respostas.

Nesse ponto é quase impossível não pensar que quem daria a voz às histéricas e de fato se proporia a ouvi-las seria o aluno mais famoso de Charcot, o neurologista Sigmund Freud. Anos depois, ainda inexperiente, no começo de sua carreira, ele passaria algum tempo em Salpêtrière acompanhando o professor francês, naquilo que era um misto de aula e espetáculo, muitas vezes encenados para políticos e profissionais de outras instituições com o objetivo de que as pesquisas sobre histeria fossem reconhecidas.

Mas na maioria das vezes era mesmo diante de um seleto grupo de homens atentos – a maioria médicos sérios e bem vestidos – jovens mulheres, em geral vindas de famílias pobres, demonstrando sintomas estranhos que não tinham correspondente físico que os justificassem, eram apresentadas, hipnotizadas, tocadas e, não raro, exibiam para a plateia desmaios, convulsões, enrijecimento do corpo, resistência à dor quando eram perfuradas por agulhas. Foi assim com Augustine, que se tornou uma das prediletas do médico. Empenhado em fazer com que a neurologia fosse reconhecida como ciência, o filho de um fabricante de carruagens, que lentamente ascendera socialmente, buscava classificar o que chegou a chamar de “museu de patologia viva”. Trabalhando com a população que residia na instituição fez observações detalhadas sobre doenças neurodegenerativas como coreia e ataxia. Mas seguia a linha teatral, que parecia bastante aceitável na época.

Assim, nuas e caladas (pelo menos até que seus gritos e gemidos se fizessem ouvir), as histéricas eram expostas, observadas, manipuladas. Para essas moças – susceptíveis a forças invisíveis, como o hipnotismo – ser examinada, tratada, (enfim, escolhida) por Charcot era uma espécie de deferência. No filme, Augustine (em algumas anotações de Charcot chamada de Louise, L. ou X., chamava-se na verdade Louise Augustine Gleizes) se destaca da multidão de mulheres ao sofrer fortes espasmos, “coincidentemente” quando o médico passa por um corredor próximo à cozinha onde ela ajuda outras internas a preparar o jantar. As cenas em que Augustine se contorce no chão lembram uma relação sexual, na qual o parceiro que a toma é invisível e ela faz movimentos ritmados com o quadril, se acaricia. Ao mesmo tempo, porém, mostra partes do corpo completamente inertes, insensíveis ao toque ou mesmo à dor. 

A sexualidade implícita, contida, ameaçadora permeia toda a trama. Essa tensão paira no filme – assim como na época em que se passa a história – seja na cor da roupa da protagonista que muda do tom pastel para o vermelho berrante (quando ela tem sua primeira menstruação), seja na mudança repentina de Charcot quando se aproxima demais de Augustine e se vê constrangido. A relação entre os dois tem caráter claramente transferencial (conceito que aborda o deslocamento de intensos afetos dirigidos pelo paciente a figuras parentais no passado para o terapeuta no presente só seria apresentado mais claramente por Freud a partir de 1912). Em algumas cenas a beleza, juventude e sensualidade dissimulada de Augustine parece desorientar completamente o médico, que por sua vez reage tentando afastar-se dela. A moça busca ser única e especial para ele – e muitas vezes atinge seu objetivo.

A respeito dela, Bourneville escreve: “Ativa, inteligente, afetuosa, temperamental e gosta de chamar a atenção sobre si. É vaidosa, gasta tempo com a aparência e em arrumar seu abundante cabelo em um estilo ou outros, tendo um gosto especial por fitas e cores vivas”. Não fossem os desmaios e paralisias, parece que esse relato poderia se adequar a grande parte das jovens mulheres saudáveis. O adoecimento de Augustine, entretanto, talvez não deva ser compreendido como um fenômeno isolado. Buscando refletir a respeito das tramas que subjazem às relações terapêuticas, é possível pensar que esse processo de adoecimento seja resultado de um jogo (às vezes mais, às vezes menos explícito) travado entre perspectivas psíquicas, biológicas e culturais. Ou seja: a doença tem em si algo de “móvel”, podendo assumir diferentes roupagens em variadas sociedades e momentos históricos. A histeria, um mistério que tanto fisgava e desafiava profissionais da saúde há mais de um século (não que hoje não o faça, mas passadas tantas décadas há outros aspectos a serem considerados) traz em si a marca da cultura e da relação entre médico e paciente. Assim como Augustine, Genevieve, Blanche e tantas outras mulheres compuseram uma notável coleção de histéricas que dolorosamente exibiram seus sintomas, atraindo os olhares fascinados de seus médicos. Talvez tenha sido essa a única forma que encontraram para ser e existir em um mundo masculino, onde só havia espaço para a sexualidade encerrada sob espartilhos, mas não para a expansão da subjetividade e da criatividade do feminino.

Leia mais:

"O terceiro tempo do encontro", resenha do filme Antes da meia-noite (2013)

"O contágio da brutalidade", resenha do filme A caça (2013)
Ervas para aliviar a ansiedade | Mente e Cérebro | Duetto Editorial
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Ervas para aliviar a ansiedade

Apesar do potencial, muitos remédios fitoterápicos não têm respaldo científico

setembro de 2013
Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz
Marilyn Barbone/Shutterstock
Ervas medicinais são bastante populares no Brasil. Mas não só. Em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, também há enorme procura por plantas com propriedades curativas. Em 2008, a estatística Patricia M. Barnes e seus colegas, do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde, apresentaram um relatório apontando que aproximadamente 20% dos americanos, incluindo nessa mostra crianças e adultos, haviam experimentado esse tipo de tratamento no ano anterior. Uma década antes, o médico especialista em medicina integrativa David M. Eisenberg, pesquisador da Escola Médica da Universidade Harvard, já havia apontado aumento de 380% do uso de remédios fitoterápicos para tratar problemas físicos e mentais, entre 1990 e 1997.

É muito provável que pelo menos parte do entusiasmo com essa terapêutica seja alimentada pelo alto custo das drogas tradicionais, que, aliás, nem sempre trazem os resultados esperados. Além disso, muitas pessoas acreditam – erroneamente – que substâncias naturais são mais seguras do que medicamentos sintéticos. 

O uso de plantas para tratamento médico data de pelo menos 3000 a.C. Hoje, a prática faz parte de um movimento amplo conhecido como terapia complementar ou alternativa. Muitas pessoas se valem desses recursos – que incluem aromaterapia, florais e massagem – para amenizar problemas psicológicos. Isso, porém, preocupa alguns cientistas. Em um estudo de 2001, o sociólogo Ronald C. Kessler e seus colegas, da Escola Médica da Universidade Harvard, acompanharam um grupode voluntários e descobriram que entre os participantes do estudo que apresentavam sintomas de pânico ou depressão severa mais da metade havia passado por algum tipo de terapia alternativa durante o ano anterior, na maioria dos casos sem supervisão médica.

AGITAÇÃO E FADIGA
O fato é que, por enquanto, nem o valor terapêutico nem os efeitos colaterais de grande parte dessas ervas foram comprovados. Isso não significa que não tenham propriedades benéficas, mas em que medida são eficazes (e não fazem mal) e como devem ser ministradas ainda não está claro. Muitos especialistas alegam, por exemplo, que apesar de pesquisas com a kava-kava (Piper methysticum), usada no tratamento de ansiedade, e com a erva-de-são-joão (Hypericum perforatum), para combater depressão, indicarem que algumas das substâncias dessas plantas podem ajudar pessoas com problemas psicológicos, os resultados ainda não são conclusivos.

É costume entre os moradores das ilhas do Pacífico usar extrato da raiz da planta kava-kava para amenizar a ansiedade ou simplesmente relaxar. A substância é frequentemente utilizada na região também em ocasiões sociais, cerimônias e para fins medicinais. Popularizada nos EstadosUnidos na década de 80, atualmente não é difícil encontrar bares americanos que servem drinques relaxantes à base da erva. 

Porém, aqueles que desejam mesmo tratar ansiedade com a planta recorrem à farmácia ou loja de produtos naturais. Resultados experimentais sugerem que a raiz tem propriedades ansiolíticas. Em um artigo publicado em 2010, os médicos Max H. Pittler, do Centro Alemão Cochrane da Universidade de Freiburg, e Edzard Ernst, da Escola Médica da Península, em Exeter, na Inglaterra, relataram a análise de 12 estudos que comparavam os efeitos da kava-kava e do placebo no tratamento da ansiedade. Os dois descobriram que a erva de fatodemonstra eficácia, embora apenas pouco maior do que a pílula inócua. Os pesquisadores alertam, no entanto, que diversos fatores, como diferenças nas dosagens, na duração do tratamento e na gravidade da ansiedade, tornaram os estudos pouco adequados para a pesquisa.

Embora o uso da erva seja relativamente seguro, o consumo não deve ser excessivo. Dores de estômago e de cabeça, agitação e fadiga são efeitos colaterais relatados com certa frequência. Um relatório de 2002 da Administração de Drogas e Alimentação (FDA, na sigla em inglês) apontou danos ao fígado causados pela raiz, o que levou à proibição da kava-kava em diversos países. Estudos posteriores, porém, amenizaram a má reputação da planta e a restrição ao consumo foi suspensa. Ainda assim, é preciso precaução. Em diversos casos de pessoas com problemas hepáticos (e habituadas a ingerir a erva) não ficou constatada relação com outros fatores.

Os efeitos de diversos medicamentos e até mesmo do álcool podem ficar mais intensos se com essas substâncias a pessoa também ingerir kava-kava. A forte sonolência causada pela perigosa combinação aumenta o risco de lesões durante certas atividades, como condução e operação de máquinas pesadas. Além disso, pode também potencializar a ação de drogas antipsicóticas, reforçando seus efeitos sedativos e anticonvulsivos. Outras pesquisas apontam que a erva-cidreira e a valeriana, por exemplo, podem ter efeito calmante, o que as torna úteis no tratamento da ansiedade. Os resultados, porém, ainda são bastante preliminaries e os perigos potenciais, incertos.

Usada ao longo da história para expulsar maus espíritos, atualmente a erva-de-são-joão é a planta mais estudada para o tratamento contra depressão. Recentemente, o médico Klaus Linde e seus colegas, da Universidade Técnica de Munique, avaliaram 29 pesquisas sobre sua eficácia no combate ao transtorno. Diversos estudos com o vegetal demonstraram que seus efeitos podem ser tão eficazes quanto os antidepressivos como o Prozac, além de provocar menos efeitos colaterais. No entanto, nem todos os experimentos avaliados pela equipe de Linde indicaram vantagens da erva-de-são-joão em relação à pílula inócua (placebo). Além disso, diversos centros de pesquisa revelam pouco apoio à ideia de que a erva possa ajudar a amenizar os sintomas da depressão. Cabe aqui, porém, uma ressalva: não se sabe até que ponto pode haver incentivo direto ou indireto da bilionária e influente indústria farmacêutica para que o uso de terapêuticas baseadas em plantas seja rejeitado.

MAIS ÂNIMO
Uma pesquisa de 2011, conduzida pelo psiquiatra Mark H. Rapaport, na época pesquisador do Hospital Cedars-Sinai, em Los Angeles, aponta que, para casos de depressão de leve a moderada, a planta não demonstra maior eficácia do que o placebo. É fato que a erva ajuda a aliviar alguns sintomas, mas as evidências ainda são pouco satisfatórias. Muitos pesquisadores, aliás, apontam alguns riscos associados ao uso da erva-de-são-joão, como dores de estômago e de cabeça, erupções cutâneas, fadiga, inquietação e confusão mental. Embora a probabilidade seja pequena, a planta pode interferir na fertilidade, piorar o quadro de pacientes com demência e deflagrar surto psicótico em pessoas predispostas a essa psicopatologia. E, assim como os antidepressivos tradicionais, a erva tem potencial de contribuir para que sejam desencadeados episódios maníacos em pacientes com transtorno bipolar, além de interagir com outras substâncias, o que em alguns casos acarreta efeitos desconhecidos. Se ingerida com antidepressivos, por exemplo, pode trazer graves prejuízos na regulação de serotonina. A eficácia de pílulas anticoncepcionais e de medicamentos para tratar problemas cardíacos e pessoas com HIV também fica reduzida com uso combinado com a erva-de-são-joão.

É evidente que drogas aprovadas para ansiedade e depressão também apresentam riscos, mas, nesse caso, há órgãos responsáveis pelo acompanhamento. Mas não existem agências governamentais para regular tratamentos com ervas. Muitas vezes, médicos não têm conhecimento de que seus pacientes se automedicam com extratos à base de plantas, o que aumenta o risco de interações prejudiciais. E ainda pouco se sabe sobre os efeitos de longo prazo do uso de ervas ou mesmo a dose ideal para tratar cada doença. 

Apesar disso, não é raro encontrar promessas exageradas sobre a eficácia de remédios fitoterápicos. Há quem relate resultados positivos em mais de 80% dos casos de pessoas tratadas de ansiedade e depressão com plantas medicinais, embora, por enquanto, as pesquisas não confirmem esses números. Obviamente não seria ponderado descartar que intervenções mais seguras e eficazes com ervas medicinais para combater depressão e ansiedade poderão surgir no futuro. Talvez, os cientistas descubram em breve que a natureza guarda um vasto arsenal de remédios para ajudar a tratar transtornos mentais.

Leia mais:

Base neural da ansiedade

Pelo prisma da ansiedade
O amor na prateleira | Mente e Cérebro | Duetto Editorial
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O amor na prateleira

Encontros rápidos e aproximações virtuais para arranjar parceiros podem confundir interessados com boas intenções

agosto de 2013
Sander van der Linden
Sven Hagolani/Corbis/Latinstock
Uma maneira contemporânea – e pouco convencional – de conhecer possíveis parceiros tem sido experimentada por homens e mulheres empenhados em iniciar um relacionamento amoroso. Durante os “encontros rápidos”, que não duram mais do que poucos minutos, participantes avaliam diversos pretendentes. As decisões, também tomadas rapidamente, com base na impressão inicial causada pelo outro, evocam reflexões sobre como selecionamos nossos companheiros.

Nesse tipo de encontro, que em geral acontece no salão de um bar usado exclusivamente para o evento, as mulheres permanecem sentadas e os homens, em fila indiana, se sentam em frente a elas para alguns instantes de conversa, até que toque um sino ou uma música para lembrá-los de que, como numa espécie de rodízio, é hora de passar para a frente e ceder seu par para outro. Entre um papo e outro, os participantes fazem anotações sobre os possíveis futuros namorados que mais os interessaram. No final, eles indicam os nomes das pessoas que gostariam de ver novamente para os organizadores do evento. Parece simples, mas cada variável no projeto do evento pode afetar os resultados.

Essa modalidade ganhou enorme popularidade, se espalhando para cidades de todo o mundo. Uma empresa de Nova York especializada nesse segmento, por exemplo, promove uma reunião assim quase todos os dias. Em 2011, a empresa de cupons on-line Group On hospedou o maior evento de encontro rápido do mundo, com 414 participantes que lotaram um restaurante em Chicago. A ideia se espalhou e agora, nos Estados Unidos, é cada vez mais comum empresas se reunirem assim com interessados em fazer investimentos e casais grávidos conhecerem candidatas a babás dessa maneira. Até cães desabrigados cortejam potenciais donos usando o formato de encontro rápido.

Há alguns anos, cedi à curiosidade e tentei participar de um encontro desse tipo. Quando a pequena campainha tocava logo após três minutos, muitas vezes eu ainda me encontrava tentando explicar a minha parceira daquele momento o motivo de meu sobrenome (que é holandês) ter quatro sílabas. Resultado: não consegui encontrar o amor da minha vida ali.

Reconheço, cometi alguns erros de iniciante. Mas algo me diz que não sou o único a ter dificuldades com encontros expressos. Mesmo que essa tentativa de se relacionar possa parecer eficiente para apreender várias informações de uma só vez, pesquisas revelam que o contexto em que fazemos uma escolha pesa sobre o resultado dessas decisões e influi na forma como nos relacionamos com suas consequências. Eventos que promovem encontros rápidos, em particular, favorecem um estilo de tomada de decisão que nem sempre pode funcionar a nosso favor. Mas saber como o ambiente influencia a mente – uma qualidade conhecida como racionalidade ecológica – pode nos ajudar a fazer melhores escolhas.

Os encontros tradicionais são casuais e dependem de detalhes aparentemente menores. Por exemplo, você se inscreveu para aula de ioga numa academia e conhece, na lanchonete, uma pessoa que o atrai; frequenta, com seus colegas de trabalho, o mesmo restaurante que o seu futuro amor. Ou mais comum ainda: vocês dois têm amigos em comum e inevitavelmente terminam se aproximando. O problema é que nem sempre estamos dispostos a esperar pelas “coincidências” e pelos “acasos”, se é que eles existem, para iniciar um relacionamento. Além disso, as pessoas que nos parecem bons candidatos a futuros parceiros nem sempre estão disponíveis e igualmente interessadas em nós. Da mesma maneira, nem sempre mantemos sentimentos recíprocos por quem gostaria de nos conhecer melhor.

Por isso, em tempos de virtualidade em alta, aproximações, paqueras e até namoros on-line estão cada vez mais comuns – e muitos deles são reconhecidamente promissores. Mas como não podia deixar de ser, também têm seus inconvenientes. São necessárias horas para peneirar perfis e criar cuidadosos e-mails de apresentação antes de combinar um encontro pessoalmente. Isso sem contar que muitas vezes a aproximação concreta com o escolhido (ou a escolhida) deixa a desejar, quando essa experiência é comparada ao que foi vivido virtualmente. Os encontros rápidos, no entanto, oferecem a oportunidade de conversar com muitos solteiros de forma objetiva – e ao vivo.

Apesar de muita gente ansiar pela diversidade das possibilidades de escolha, pesquisas recentes mostram que, quando se trata de relacionamentos afetivos, tendemos a obter mais sucesso quando o número de opções é menor. Em um estudo de 2011 publicado há poucos meses no periódico científico Biology Letters, o psicólogo Alison P. Lenton, pesquisador da Universidade de Edimburgo, e o economista Marco Francesconi, professor da Universidade de Essex, analisaram mais de 3.700 decisões referentes a relacionamento em 84 eventos de encontros rápidos. Os autores descobriram que, quando as perspectivas variam muito no que diz respeito a atributos como idade, altura, ocupação e escolaridade, as pessoas fazem menos propostas de namoro. O efeito é particularmente forte quando os indivíduos são confrontados com grande quantidade de possíveis parceiros. Além disso, em encontros rápidos em que as características dos participantes são muito variadas, a maioria não chega a, efetivamente, conhecer nenhum dos candidatos.

Pesquisas sobre namoro on-line corroboram essa conclusão. Um estudo realizado em 2008 por Lenton e Barbara Fasolo, da Escola de Londres de Economia e Ciência Política, indica que os participantes muitas vezes subestimam o fato de que o excesso de possibilidades possa afetar seus sentimentos. Curiosamente, candidatos que conheceram muitos potenciais parceiros mais alinhados com o que esperaram não experimentaram maior satisfação emocional do que quando tiveram menos opções.

A pesquisa preliminar de Lenton e Francesconi fornece algumas evidências sobre o motivo de algumas pessoas terem dificuldade em encontros rápidos. Eles descobriram, por exemplo, que quando o número de participantes em um evento desse tipo aumenta, as pessoas têm mais inclinação a seguir orientações inatas, conhecidas como heurísticas, em sua tomada de decisão. Em essência, a heurística é o conjunto de “regras de ouro” que temos arraigadas e nos permitem poupar esforço ignorando algumas informações disponíveis enquanto avaliamos nossas opções. Os pesquisadores descobriram que em situações nas quais o número de participantes é relativamente grande, as pessoas em geral atentam para características mais facilmente acessíveis – como idade, altura e grau de atratividade física, em vez de pistas mais difíceis de observar, como ocupação e grau de escolaridade.

Milhões de anos de experiência com heurísticas diferentes, em vários ambientes, aliados à evolução, que nos permitem adaptações ao longo do “percurso”, levaram nossa espécie a distinguir o que é mais eficaz. Falando de forma bem simplificada, boa aparência e vigor juvenil são realmente métricas úteis para o acasalamento porque revelam sinais de saúde – e indivíduos saudáveis têm mais chance de gerar filhos saudáveis, e propagar a espécie. Entretanto, se o que você procura é o amor da sua vida, há o risco de favorecer seleções estereotipadas – e ver o outro e a si mesmo como uma mercadoria. Ou seja: o problema com encontros rápidos e on-line parece estar na maneira como as pessoas procuram o que querem, identificando o parceiro em potencial como um “produto”.

Considerando essa óptica, própria da sociedade contemporânea, percebemos que artigos de fato são encontrados com uma simples pesquisa dirigida a qualidades objetivas. O modelo search goods (busca de mercadoria) inclui a procura por produtos como detergentes e vitaminas. Outros itens podem ser identificados apenas por meio de interação – experience goods (experiência com o produto) – que engloba filmes e animais de estimação, por exemplo.

Em um estudo publicado em 2008, o psicólogo Dan Ariely, da Universidade Duke, e seus colegas demonstraram que, quando se trata de namoro, as pessoas se enquadram em um tipo específico de experience goods. Os estudiosos pediram a 47 participantes solteiros, homens e mulheres, para listar as qualidades que procuravam em pessoas que considerariam namorar ou casar. Em seguida, avaliadores independentes classificaram as características como “possível de pesquisar” ou “possível de experimentar”. Em ambas as condições, homens e mulheres mencionaram mais traços possíveis de serem experimentados – quase três vezes mais para parceiros que pretendiam namorar e quase cinco vezes mais para pessoas que desejavam se casar.

Ariely e sua equipe argumentam que critérios como “a forma como alguém faz você rir” ou “como o seu parceiro faz você se sentir bem consigo mesmo” são mais difíceis de definir em um perfil on-line do que predileção por gatos, futebol ou bolo de chocolate, por exemplo, o que leva as pessoas a fazerem julgamentos com base em características “pesquisáveis”. Eles observaram que o uso de atributos como peso e altura na hora de escolher um parceiro é semelhante a tentar prever o sabor de um alimento com base em seu teor de fibras e calorias. Um argumento similar poderia ser usado em um encontro rápido, em que a conversa parece se assemelhar mais a uma entrevista do que a uma experiência divertida.

Em seu próximo livro, Lenton, Fasolo e sua equipe resumem a mensagem principal da pesquisa: a escolha de cônjuge, namorada ou namorado está associada com o ambiente social em que a decisão é tomada. Para conservar tempo e esforço mental, julgamos potenciais parceiros comparando-os com outros que encontramos em vez de compará-los com algum ideal cognitivo. Em um estudo desenvolvido por Raymond Fisman, da Universidade Columbia, foi perguntado aos participantes de um evento de encontro rápido o que procuravam em um parceiro em potencial. Posteriormente verificou--se que suas respostas não corresponderam aos perfis de pessoas que consideraram atraentes durante o evento. O que selecionamos depende do que mais está sendo oferecido.

Tornar-se consciente da maleabilidade de nosso gosto e ganhar controle sobre estratégias de tomada de decisão que costumamos utilizar significa agir com “racionalidade ecológica”. Sob certos enfoques, processos psicológicos envolvidos na escolha entre doces e frutas no supermercado e parceiros para se relacionar podem ser bem similares – as diferenças estão no envolvimento e nas consequências de cada situação.

Por isso, se alguém cogita participar de um encontro rápido, o melhor seria evitar conversas estáticas e padronizadas. Perguntar sobre rendimento anual e índice de massa corporal, no final das contas, pode causar sensação de desconforto no interlocutor. Para conseguir informações mais relacionadas a experiências, o melhor mesmo seria contar uma piada ou mencionar casualmente planos de saltar de Bungee Jump no próximo mês, por exemplo, para ver como a pessoa reage. Talvez se eu tivesse sido mais ecologicamente racional há alguns anos, a minha experiência no encontro rápido pudesse ter sido mais bem-sucedida.

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O que os ratos nos ensinam sobre amor e sexo

Quando o amor acaba
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Doce veneno

O consumo excessivo de açúcar pode aumentar o risco de depressão e estresse, além de prejudicar conexões neurológicas

julho de 2013
Manuella Batista de Oliveira e Eduardo Schenberg
Holbox/Shutterstock
Na mesma época em que os europeus desembarcaram na América, uma mania alimentar invadia a Inglaterra e um sabor exótico, maravilhosamente doce, chegava das Índias Orientais: o açúcar. Os ingleses temperavam quase tudo com o novo produto, até mesmo batatas, carnes, ovos e vinho. A moda tomou conta do país rapidamente. Se pudesse, muita gente comeria açúcar puro na colher. A maioria, porém, não podia, já que o item era bastante caro.  A paixão, aliás, fez muitos ricos ficarem com dentes escuros e podres. E os pobres, que não tinham acesso a tanto açúcar, chegavam a ponto de pintar os dentes de preto.

Uma moda que leva as pessoas a ter dentes estragados – ou a falsificá-los – parece um tanto bizarra quando vista pela perspectiva do século 21. Mas o problema é que o frisson açucareiro segue o mesmo percurso – ou se mostra até mais preocupante – desde os dias do rei Henrique 8o. O consumo de açúcar pelos britânicos na época era de aproximadamente 9 quilos por pessoa por ano, enquanto hoje é de quase 40 quilos. Nos Estados Unidos, a situação é ainda pior: são quase 60,5 quilos por pessoa, anualmente. E aqui no Brasil, 51 quilos anuais – mais de 4 quilos por mês.

A moda do dente podre passou, em grande parte, por mérito dos dentistas, mas o uso de açúcar continua preocupante, já que está comprovadamente associado a problemas tão visíveis quanto dentes escurecidos: são registradas 35 milhões de mortes anuais no mundo relacionadas à obesidade ou decorrentes do consumo exagerado do produto e outros nutrientes que frequentemente o acompanham, como as gorduras. E é no mais inesperado dos produtos que se encontra uma quantidade estrondosa de açúcar: as bebidas. Refrigerantes, chás e sucos enlatados ou vendidos em caixas são responsáveis por pelo menos 180 mil mortes anuais no planeta, segundo o estudo The global burden of disease, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O custo para a saúde pública no Brasil também é estrondoso: quase R$ 500 milhões por ano, segundo estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB).

Tudo isso é revelado com transparência no documentário brasileiro Muito além do peso, da Maria Farinha Filmes e do Instituto Alana. Recentemente lançado, pode ser assistido gratuitamente na internet (www.muitoalemdopeso.com.br). O filme devia se tornar, instantaneamente, material didático em todas as escolas do Brasil. Em 80 minutos, o espectador se depara com o problema de forma direta e contundente: ao lado das latinhas de refrigerante, caixinhas de doces e de suco, são colocados sacos com a quantidade de açúcar encontrada dentro das respectivas embalagens. É difícil acreditar no que vemos: uma lata pequena de bebida contém sete saquinhos de açúcar. O consumo de uma lata por dia em um mês corresponde a 1,1 quilo de açúcar, o que encheria quase cinco latinhas só com açúcar.

“DISFARCE” DE CARBOIDRATO
Pesquisadores estimam que, diariamente, uma criança consuma, em média, 250 calorias extras, provenientes desses líquidos açucarados. O excesso constante pode ocasionar danos irreparáveis à saúde, mesmo em crianças de apenas 4 anos, contribuindo para o aumento significativo da incidência de diabetes tipo 2 nos primeiros anos de vida. Estima-se hoje que 33,5% das crianças brasileiras sofram de sobrepeso ou obesidade – e de cada cinco meninas e meninos obesos, quatro manterão essa condição na idade adulta. Para o endocrinologista Amélio de Godoy Matos, o quadro está diretamente relacionado a doenças cardiovasculares, a maior causa de mortalidade no mundo. E mais: há associações com depressão, estresse e até mesmo alguns tipos de câncer.

A endocrinologista Danielle Macellaro Andreoni, da Universidade de São Paulo (USP), cita sua experiência com uma paciente de 62 kg. Ela sofre de hipertensão, diabetes tipo 2, apresenta ainda colesterol, ácido úrico e triglicérides elevados. À primeira vista, esse parece ser o quadro de uma pessoa de 60 anos. Entretanto, surpreendentemente, tem apenas 9. A médica teme que situações como essa se tornem cada vez mais comuns, já que, atualmente, o uso de açúcar aumenta exponencialmente entre crianças e adolescentes, principalmente com o consumo extravagante de bebidas açucaradas. A estratégia de propaganda é perversa: as embalagens não são claras, e quando aparece, o açúcar vem descrito como “carboidrato”, palavra desconhecida da maioria da população.

Outro agravante é o fato de que mães e pais pouco informados oferecem a seus filhos essas bebidas açucaradas muito cedo: estima-se que 56% dos bebês brasileiros hoje consomem o líquido doce dessas latinhas em suas mamadeiras antes mesmo de completar o primeiro ano de vida. E, enquanto crescem, nas poucas horas diárias que passam na escola, não aprendem uma das coisas mais básicas e fundamentais: noções de nutrição saudável.

Além disso, nos programas de televisão aos quais assistem por pelo menos cinco horas diárias, as crianças são incentivadas a desejar compulsivamente os doces venenos, disseminados na categoria junk food. O termo foi criado na década de 70 por Michael Jacobson, então diretor do Center for Science in the Public Interest. A expressão junk food está associada a alimentos com alto teor calórico, ricos em açúcar, sal, gordura saturada e aditivos, como glutamato monossódico e tartrazina – mas com níveis reduzidos de nutrientes saudáveis. Oferecem poucas proteínas, vitaminas e fibras dietéticas. Esses “alimentos-lixo” são propagandeados pelos programas de TV como fonte da felicidade, e para vender essa ideia são utilizados efeitos especiais, alta tecnologia e personagens queridos da garotada. Os roteiros são elaborados para capturar a atenção dos pequeninos, seduzidos por alimentos e bebidas acompanhados de brinquedos e bugigangas – a isca perfeita.

Como enfatiza o documentário Muito além do peso, “criança é cidadão e tem o direito a ser informada e a escolher de acordo com as informações que recebe”. E, de fato, estudos neurocientíficos recentes mostram que essa história trágica pode começar a mudar no processo de escolha das próprias crianças. Entretanto, este é apenas o capítulo inicial, já que os efeitos dos produtos açucarados vão muito além do processo de escolha. Do ponto de vista neurológico, a ação do produto contribui para a modificação da atividade de várias estruturas cerebrais, e o resultado pode ser o prejuízo da capacidade de tomar decisões. A questão é tão séria que, do ponto de vista da neurociência, o açúcar pode ser considerado uma droga, já que é capaz de criar dependência.

COM APOIO DAS LEIS
Para começar, o cérebro, com cerca de 2% do peso total de nosso corpo, recebe aproximadamente 15% do volume de sangue bombeado pelo coração e usa principalmente a glicose como molécula energética. Assim, consome 25% da glicose disponível em todo o organismo. Ou seja: o mais sofisticado dos órgãos utiliza açúcar como fonte de energia – e o capta rapidamente. Mas ao chegar ao cérebro, o açúcar ativa as mesmas regiões que as drogas legalmente proibidas, como cocaína, e outras legalizadas, como o álcool. As principais estruturas neurológicas envolvidas nesse processo são o hipotálamo, o estriado dorsal e áreas do córtex pré-frontal. Essas regiões formam uma rede já muito bem conhecida pela ciência, ligada aos mecanismos de satisfação: o circuito dopaminérgico mesocortical. Trata-se de uma via cerebral que libera principalmente o neurotransmissor dopamina, importante na sensação de prazer. Quando essas áreas são ativadas frequentemente por hábitos como o consumo diário e excessivo de açúcar, desencadeia-se um círculo vicioso quase impossível de parar. É possível observar isso no comportamento de ratos de laboratórios mundo afora: durante os testes, os animais chegam a consumir açúcar de forma mais compulsiva que cocaína.

Para a psiquiatria, a dependência de drogas é definida como uma situação em que ocorrem quatro ou mais das seguintes condições: desejo intenso de consumir a substância; incapacidade de controlar o próprio uso; síndrome de abstinência (tensão e irritação quando não utiliza a substância); tolerância aos efeitos (consumo cada vez maior para obter a mesma sensação de prazer); muito tempo gasto procurando, consumindo e se recuperando dos efeitos; continuidade no uso do produto, mesmo com o surgimento de problemas. No caso do açúcar, e das crianças mais especificamente, é gritante o desejo de consumir, a quase que total incapacidade de controlar esse consumo, o excesso de tempo gasto procurando doces e comendo-os e a persistência do consumo, mesmo com o aparecimento de problemas sérios como obesidade e diabetes, dores nas pernas e incapacidade de se exercitar.

A questão tem levantado interesse crescente da comunidade científica e chegou a ser tratado na capa do periódico científico Nature Neuroscience. Se para adultos já é complicado parar com hábitos que incluem a forte ativação do circuito dopaminérgico mesocortical, para crianças é muito mais. O excesso de ativação dessa via prejudica o córtex frontal e algumas de suas conexões que nos permitem fazer escolhas. Por isso, para os pequenos dependentes de açúcar, tomar a decisão de comer ou beber algo mais saudável é quase impossível.

É com base nessa situação que vários cientistas têm defendido a regulamentação do açúcar para menores de idade. Essa proposta, que pode parecer radical para muitos, foi recentemente veiculada pelo Center for Science in the Public Interest, dos Estados Unidos. No Brasil, a sociedade civil tem se organizado razoavelmente bem em torno do assunto.  No Rio de Janeiro, em Florianópolis e Belo Horizonte já há leis restringindo a publicidade de alimentos não saudáveis para crianças. No estado de São Paulo, uma lei aprovada pelos deputados para limitar a propaganda para crianças foi vetada pelo governador Geraldo Alckmin, embora o projeto conte com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Certamente, as leis podem significar avanço na batalha entre a TV e os pais, na tentativa de influenciar os hábitos alimentares das crianças. Mas a legislação não resolve todo o problema: é fundamental que pais, mães, professores e educadores tenham conhecimento da gravidade da situação e se empenhem em mudar aquilo que nossas crianças – e também aquilo que nós, adultos – colocam dentro do corpo sem questionamento, mas de forma tão prejudicial.

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Preferência sexual não é opção

Que religiosos e políticos esperneiem à vontade, mas não há evidência de que o ambiente social influencie o interesse por homens ou mulheres

março de 2013
Suzana Herculano-Houzel
Gonçalo Viana
Na hora do sexo, você gosta de homens ou de mulheres? Acha que isso é uma escolha consciente, que pode ser “certa” ou “errada”, ou uma questão biológica, mera constatação das preferências do seu cérebro, da mesma maneira que se constata a cor da pele ou dos cabelos?

Toda a neurociência indica que a orientação sexual é inata, determinada biologicamente e antes mesmo do nascimento. Aliás, o termo correto para designar a heterossexualidade ou homossexualidade é “preferência” sexual e não “opção” sexual. A razão é simples: interessar-se sexualmente por homens ou mulheres é algo que seu cérebro faz automaticamente, pouco importando o que você pensa a respeito. Opção, isso sim, é o que você faz com a sua preferência: assume publicamente, abraça e curte, ou tenta abafar, esconder, ou mesmo ir contra ela.

Que religiosos e políticos esperneiem à vontade, mas não há qualquer evidência de que o ambiente social influencie a preferência sexual, humana ou de outros bichos. Cerca de 10% dos homens e das mulheres preferem parceiros do mesmo sexo. A estatística não muda entre pessoas criadas por pai e mãe, dois pais, duas mães, com religião ou sem ela. Tentativas sociais de convencer humanos ou outros animais a mudar de preferência sexual nunca deram muito certo.

A preferência sexual está associada à maneira como o hipotálamo responde a feromônios, substâncias pouco voláteis produzidas pelo corpo, mas que ainda assim entram nariz adentro e surtem efeitos sobre o hipotálamo. Um estudo do Instituto Karolinska, na Suécia, mostrou poucos anos atrás que o hipotálamo de cada pessoa é preferencialmente sensível a um de dois tipos de feromônios: ou o feminino, ou o masculino.

O hipotálamo de homens heterossexuais – e também o das mulheres homossexuais – responde fortemente ao feromônio produzido somente por mulheres, chamado EST. Ao contrário, o hipotálamo de mulheres heterossexuais, e também de homens homossexuais, responde preferencialmente ao feromônio masculino, AND. Com tudo o que se conhece sobre a região envolvida do hipotálamo, deve se seguir uma cascata de eventos em outras áreas do cérebro, como a amígdala, o córtex cerebral e o sistema de recompensa, que provocam excitação sexual e fazem com que se busque o dono, ou a dona, do feromônio que ativou o hipotálamo.

O padrão de resposta do hipotálamo, portanto, concorda não com o sexo de cada pessoa, e sim com sua preferência sexual – e, com base em tudo o que já se sabia antes, provavelmente dita essa preferência. São sexualmente excitáveis por mulheres aqueles proprietários de hipotálamo que responde ao EST, feromônio feminino, e não ao AND; são excitáveis por homens, que por definição produzem o feromônio AND, os donos de hipotálamo sensível ao AND – sejam eles mulheres ou homens.

Revelada quando o cérebro adolescente, sensibilizado pelos hormônios sexuais produzidos sob seu controle, expressa o caminho que tomou ainda na gestação, a preferência sexual não se escolhe: descobre-se. Por isso, ela é exatamente tão “correta” quanto a cor da sua pele. Tentar mudar a preferência sexual é como insistir que uma pessoa troque a cor da pele, se torne mais baixa, ou tenha olhos de outra cor. É como exigir que você, leitor, com 90% de chance de ser heterossexual, agora tenha de se relacionar com pessoas do seu próprio sexo. Gostou da ideia? Aposto que não. É inviável, inútil e injusto. 

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O que os ratos nos ensinam sobre amor e sexo

Camundongos podem ajudar a entender alguns dos mistérios das relações afetivas

janeiro de 2013
Eric Isselee/Shutterstock
por Kelly Lambert

Ratos têm sido estudados intensamente – o que nos permite usá-los como modelo para conhecer a influência de hormônios, medicamentos, da idade e inúmeras outras variáveis, inclusive sobre atuação sexual. Depois de décadas de pesquisa, sabemos que esses animais têm comportamentos bastante previsíveis na “intimidade”. Ao longo de muitos anos, diversos estudos sobre o comportamento sexual de ratos têm lançado luz sobre os efeitos de diferentes hormônios em vários aspectos do processo de reprodução. Em todo o mundo, pacientes que utilizam técnicas de fertilidade têm se beneficiado do trabalho em endocrinologia reprodutiva, com pioneira contribuição de roedores. Também podemos aprender algo com os ratos a respeito das potenciais perturbações de certas drogas ou aprimorar condições ambientais em relação a respostas sexuais. 

O cineasta Woody Allen é autor da famosa declaração de que o cérebro é seu segundo órgão favorito. Mas a verdade é que o cérebro é tão essencial para o comportamento sexual quanto os órgãos reprodutivos. Os hormônios envolvidos na reprodução, como estrogênio, progesterona, testosterona e prolactina, acionam os gatilhos neurais apropriados para eliciar respostas reprodutivas. Nos roedores, se os hormônios são removidos também o comportamento é anulado – suas respostas sexuais são consideradas hormonodependentes. Essas substâncias exercem efeitos ao entrar no cérebro através de um sistema de segurança, a barreira hematoencefálica, e ativam regiões responsáveis por comportamentos relacionados à reprodução. 

Estudos com fêmeas têm focado na pequena estrutura chamada hipotálamo. Do tamanho da cabeça de um alfinete, a região está envolvida principalmente no controle das emoções e comportamentos, como comer, beber, copular, fugir e lutar. Dentro dessa estrutura há grupos semelhantes de células nervosas com funções específicas. O núcleo hipotalâmico ventromedial, por exemplo, está intimamente envolvido com a lordose exibida pela fêmea. Se essa área do cérebro é removida a rata já não terá a postura necessária para iniciar o ato sexual. Por outro lado, se o hormônio reprodutivo progesterona passa por essa região, provoca o comportamento de flerte na fêmea – pulos, movimentos rápidos e balanço das orelhas. Juntamente com outras áreas do cérebro, o hipotálamo ventromedial controla também a sensação de saciedade, nos informando quando estamos satisfeitos. Talvez o cérebro feminino perceba pouca diferença entre sexo e comida, o que pode explicar por que o chocolate é um dos produtos mais oferecidos quando o objetivo é agradar à mulher amada – ou, pelo menos, desejada. 

A dopamina, envolvida na recompensa neuroquímica do cérebro, e o núcleo accumbens, ligado à sensação de prazer, estão envolvidos na resposta para a cópula. Se houver algum problema nessa área, as fêmeas rejeitam os machos mais frequentemente do que quando têm um circuito de recompensa intacto. Um interessante estudo realizado na década de 70 fornece uma forte evidência da intensidade da motivação da fêmea para encontros sexuais. Os pesquisadores descobriram que, para ter acesso a um macho, as ratas corriam até por uma cerca eletrificada – mais uma descoberta que contraria a crença de que elas desempenham papel passivo na cópula. 

Outra parte do hipotálamo, a área pré-óptica medial, contribui para a resposta sexual em ratos machos, assim como a amígdala, que participa do processo de regulação emocional. Em um experimento, o neurocientista Barry Everitt e seus colegas, da Universidade de Cambridge, treinaram ratos machos para pressionar uma barra e ter acesso a uma fêmea sexualmente receptiva. Depois que os animais machos aprenderam a tarefa, os cientistas interferiram no funcionamento da área medial pré-óptica e devolveram os animais à “câmara de sexo”. Os ratos com lesão cerebral continuaram a pressionar a barra e ter acesso às fêmeas, sugerindo que ainda as queriam. Mas, quando uma fêmea se aproximava, eles não conseguiam copular. No entanto, após terem a amígdala danificada, ocorreu o contrário: os machos não mais pressionaram a barra para ter acesso às ratas – o desejo se foi –, mas, se uma fêmea era apresentada, eles tentavam copular novamente. Everitt e sua equipe concluíram que desejo sexual é dissociado do desempenho. 

O circuito de recompensa cerebral também está envolvido no comportamento sexual de machos. Os pesquisadores administraram anfetamina – uma droga que aumenta a dopamina – no centro de prazer do cérebro de ratos machos com a amígdala lesionada e os roedores voltaram a pressionar a barra para ter acesso às fêmeas, o que indica que o incremento no centro de recompensa compensou a falta da função da amígdala. A dopamina no centro de prazer do cérebro dos ratos também aumenta naturalmente depois de eles visualizarem uma fêmea receptiva. 

O grupo de Larry J. Young, da Escola de Medicina da Universidade Emory, também acompanhou o padrão de receptores de oxitocina em ratos silvestres do sexo feminino. A equipe identificou altos níveis desses receptores em torno do núcleo accumbens e do córtex pré-frontal, uma área responsável por funções cognitivas. Além disso, a dopamina facilita a ligação amorosa entre ratazanas da pradaria de ambos os sexos. A pesquisa sobre Romeus e Julietas roedores revela a receita para um coquetel romântico: oxitocina e vasopressina combinadas com uma pitada de dopamina. Naturalmente, o processo é delicado e complexo – e a poção do amor está muito longe de poder, um dia, ser comercializada.

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